Hoje


Hoje ao voltar pra casa vou lembrar que não há mais você lá e ficar feliz com isso. Mais do que isso. Vou ser tomado por uma felicidade tão absurda e irreal quanto a que sempre desejei. Será uma espécie de outro voltando pra casa. Um homem diferente do que saiu, pela manhã. Um homem diferente, tanto quanto você sempre desejou. Hoje volto diferente mas você não vai estar lá para ver. O homem diferente de hoje não é necessariamente o que você desejou. Não sei se ele é pior ou melhor. Mas é fato que é outro. E é fato que ele é mais feliz. Hoje ao voltar pra casa, mais aliviado, vou olhar para a janela da sala, ainda na rua, como sempre faço e verei as luzes apagadas. Não há ninguém em casa. Tampouco ela será a mesma sem os seus antigos moradores. Porque hoje é um estranho que vai virar as chaves na porta, acender as luzes, olhar os peixes do aquário, abrir as janelas e deixar o vento entrar. Hoje, um estranho vai sentar na poltrona que fica próxima a janela e não vai ter que esperar a qualquer momento a porta abrir e ouvir seus passos apressados entrando. A sua mão tocando seu ombro e perguntando qualquer coisa que ele não quer mais ouvir. Nem responder. Vai poder acender um cigarro e não ter nenhuma vontade de fumar. Vai poder olhar pela janela, sem recriminações e ver as pessoas passarem na rua. Hoje são tantas. Hoje são as mesmas. Mas são outras.

Blind

The real Photoshop


– Veja no link o making of desta foto feita para anúncio da Adobe, por ocasião de lançamento da versão CS4 do software.

Art Snob Solutions @ Flickr

Esconda-se nos livros


http://ffffound.com/

Do Blog do Antônio

"Capriche na gentileza e na simpatia, pois todos com quem você se esbarra, sem exceção, estão travando suas próprias batalhas”.

O homem cordial

da Folha Online

Era um homem cordial. Fazia questão disso. Adorava ser educado, usar palavras gentis, dar preferência, ter compostura. Adorava a palavra compostura.
Na fila do banco, do supermercado, numa loja, na padaria, sempre olhava para ver se tinha algum idoso, alguma mulher, uma grávida quem sabe, com quem pudesse ser gentil, a quem pudesse ceder a vez.
No trânsito, costumava ser insultado com freqüência, porque vivia deixando qualquer um passar na frente, esperava aquela velhinha atrapalhada estacionar sem pressa, nem chegava perto dos motoboys, parava no sinal ainda amarelo, nunca ultrapassava a velocidade permitida. "Sai da frente, mané! Roda presa!", ouvia, e deixava para lá, com um sorriso superior, de quem sabia exatamente o que estava fazendo e fazia exatamente o que queria fazer: ser correto, gentil, sem estresse, tentando provar para ele mesmo, para sua família e para o mundo que, sim, o homem é basicamente bom. E o brasileiro, particularmente, é cordial, o Sergio Buarque de Hollanda estava certo...
Houve um dia que chegou ao cúmulo de esperar mais de uma hora no aeroporto porque não agüentou assistir ao bate-boca entre um passageiro que perdera o vôo e o atendente, ambos explodindo de irritação. Para acabar com aquele "clima ruim", cedeu seu lugar para o Rio de Janeiro. "Vou no próximo, é ponte aérea, não demora nada", afirmou para interlocutores totalmente atônitos.
Não que esperasse alguma coisa em troca da sua gentileza. Já tinha ouvido falar do tal profeta do Rio, aquele que dizia que "gentileza gera gentileza", mas nem com relação a isso alimentava muita expectativa. Agia dessa maneira simplesmente porque achava correto.
Como achava correto dar bom dia e boa tarde, apertar o botão do elevador para os demais passageiros, abrir a porta do carro para as mulheres.
Também não achava correto fechar o vidro na cara daqueles maltrapilhos que vinham pedir esmola no semáforo ali na esquina da sua casa. Até conhecia alguns, sempre dava uns trocados, por isso não estranhou quando o homem se aproximou com a cabeça coberta por um cobertor imundo e encostou no carro, como que pretendendo limpar o pára brisa, com um paninho mais imundo ainda. Abriu o vidro apenas para dizer que não precisava limpar o vidro, que de fato não seria limpo mesmo, porque iria dar a moeda para o homem de qualquer jeito.
Não deu tempo de dizer nada, porque por debaixo do cobertor surgiu a outra mão do homem, com um caco de garrafa pontiagudo.
O corte pegou da boca até a orelha, quase talhando a jugular, passando perto do olho.
Conseguiu chegar ao hospital tempo de estancar a hemorragia, levou dezenas de pontos, quase sucumbiu a uma infecção, mas já está em casa, sem poder falar.
É meio perversa a minha curiosidade, mas queria saber o que ele pensa agora a respeito da cordialidade.
É difícil saber qual é o limite da bondade (e da maldade) humana.

Luiz Caversan, 52, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa.

Jaboticabeiras



Quando tem coisas pendentes dependendo de datas e dias por delitos impensados e bombas que foram lançadas no seu quintal sem explodirem, você fica assim. A sensação de que há muitas coisas a resolver no horário comercial mas que não vai dar tempo de sair a tempo de ainda pegar o banco aberto. E o dia passa muito, muito lento. E você passa por ele bufando. Tentando expelir. Tentando se livrar. Mas se não se resolve não se livra. E o dia passa. E você deseja com toda a força da sua vontade acordar de novo naquela antiga casa amarela da sua tia onde tinha um quintal grande com infinitos varais de roupas cheios de lençóis e os pés de jabuticaba todos carregados e você acordava e corria pelo grande quintal, vencia os lençóis que voavam todos na sua direção e chegava, ainda tonto de sono à primeira jaboticabeira que estivesse ao seu alcance. Trepado ali o seu dia começava.

Pessoas


Tem aquelas pessoas de quem você não gosta. Tem aquelas pessoas que não gostam de você. Tem aquelas pessoas de quem você gosta e não pode estar. Tem aquelas pessoas que gostam de você mas isso não muda nada. Significa muito. Mas não muda nada. Todas as pessoas tão por aí e elas tão tentando se encontrar. Às vezes conseguem. Mas na maioria das vezes não. Porque é assim mesmo. Todas as pessoas tão na luta e tentando não enlouquecer. E tentando se entender. Tem muitas pessoas de quem eu gosto. Mas não entendo. Tem pessoas que me entendem. Mas que gostam de mim. E isso muda todo o entendimento. Enquanto tantas pessoas ultrapassam qualquer entendimento. Apesar daquelas pessoas que gostam de mim, eu ainda acho que tô melhor sozinho. Funciono melhor assim. Embora muitas pessoas não entendam. Mas eu não tô pedindo entendimento. Tô pedindo pra continuarem assim. E eu também.

AWESOME!!

Moleskine


– O primeiro moleskine a gente nunca esquece.
E eu acabei de ganhar um!! \o/