AP 63


Ele dizia que fumava só um, no fim do dia. Chegava em casa, dava comida pros peixes, e já descalço e de cuecas, fumava só um, na janela, olhando a rua lá embaixo. Talvez por isso o apartamento não cheirasse muito a cigarro. Mas ele percebeu as pegadas de suor nos tacos do assoalho. O cheiro daquele único cigarro, misturava-se ao do perfume dele, que, embora tivesse sido passado pela manhã, ainda fixava-se à pele. E ele gostava daquela combinação, embora não gostasse do cheiro de cigarro. Nunca fumara. Não gostava de fumantes. Mas aquela combinação o agradava. E ele achava estranho o fato de apenas naquela combinação preferir o cheiro de cigarro, misturado ao perfume dele, que ele acabava de conhecer. As diferenças eram muitas: idade, credo, formação, estatura. Mas elas simplesmente não existiam, embora existissem. Era como se não fossem vistas, embora aparecessem. Mais. Era como se não fossem sentidas. Eles não sentiam as diferenças. Apenas o cheiro de cigarro, misturado ao perfume ainda fixado à pele, na janela aberta, a cueca frouxa, as pegadas de suor pelos tacos do assoalho.
Depois de muito tempo ele entrou no apartamento, mas parou no meio da sala, imaginando-o ainda, na janela, fumando o único cigarro do dia, olhando a rua lá embaixo. Não o via, mas ainda podia sentir os cheiros flutuando pela sala. As janelas abertas e o ar da noite secando as pegadas de suor nos tacos do assoalho. Parou no meio da sala e esperou. Esperou que o chamassem, de qualquer outro cômodo da casa. A única luz acesa, da cozinha, e um silêncio, onde ninguém o chamava. Qualquer coisa como entra, fica à vontade, senta aí. Ouvia ainda, mas ninguém o chamava. Procurou, ainda, alguma pegada de suor no chão, mas as janelas abertas tinham apagado as marcas. Ele não fumava. Nunca fumara em toda sua vida, mas sentiu uma súbita vontade. Talvez só para parecer um pouco com ele. Um pouco, quem sabe. E talvez ele também fumasse na janela, só de cuecas, olhando a rua lá embaixo.
Não o conhecia muito bem. Fora pouco o tempo de contato. Poucos dias naquele apartamento tão arejado, embora fosse pequeno. Eram as janelas sempre abertas. O ar da rua entrando, à noite, quando estavam juntos, e ele chegava, e o via ainda na janela, fumando o único cigarro do dia. E era sempre o mesmo sorriso ao vê-lo entrar e parar no meio da sala, como se quizesse assistí-lo, à janela, de cuecas e descalço. Sempre o mesmo sorriso, que lhe parecia, apesar da diferença de idade, apesar da diferença de tantas coisas, tão infantil. Mas as diferenças deixavam de existir ali, naquele apartamento de tacos no assoalho, agora secos e nenhuma marca sequer. As marcas agora todas nele, parado no meio da sala, esperando ainda, que alguém o chamasse, de algum outro cômodo qualquer da casa. Mas tinha apenas a luz da cozinha, branca, forte, asséptica. Ele ainda ficou um tempo parado no meio da sala. Respirou profundamente. Não pra sentir qualquer outro cheiro, que não fosse um resíduo que ainda restasse na sala, daquele único cigarro fumado no dia, misturado àquele perfume, passado pela manhã, ainda fixado na pele. Aquela mistura de perfumes, que ele sentía quando chegava, à noite, e o via na janela, descalço e de cuecas, fumando o único cigarro do dia, olhando a rua lá embaixo.

2 Response to "AP 63"

  1. Otavio Martins Says:

    Caralho, Heitor! O universo que vc construiu pra contar essa história é multisensorial ao extremo, eu consegui sentir aqueles cheiros, enxergar aquela luz, sentir aquela temperatura. E muito erótico, ao mesmo tempo, uma sensação de tesão alheio veio muito forte. Ducaraglio!

  2. Jones Otávio Says:

    Todos nós fumamos apenas um cigarro.... um único cigarro, se for pensar bem... um experiência nova, uma pessoa nova na nossa vida é um "cigarro", continuar o vício, bem aí já são outros quinhentos. Gostei mto do texto... Abração