Cortázar


"E, se nos mordemos, a dor é doce, e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta, e eu te sinto tremular contra mim, como um lua na água."

Mergulho


Nestes dias em que chove muito. Mas o calor não cessa. Nestes dias que são mais abafados que molhados. Embora incomode. Eu lembro da presença da chuva em vários momentos que já vivi. É uma espécie de prazer ao contrário, estes dias em que chove muito. Lembro da sensação dos banhos de chuva no quintal, ou na rua em frente de casa. Ou dos mergulhos na piscina, ou mesmo no mar, em dias de chuva – rotinas cariocas. Sabe aquela sensação de entrar na água, não num dia claro de sol, mas num dia até meio frio, nublado e chuvoso. Quando falo da espécie de prazer ao contrário, talvez queira dizer que os dias de chuva pode sim atrapalhar ou tirar o prazer de muita gente, eu incluso. Mas tem o além disso. Lembro por exemplo que nos dias muito quentes, que já se previa a chuvarada pela tarde, eu entrava embaixo do fusca do meu pai, estacionado na garagem – nesta época eu cabia – e só com a cabeça pra fora, embaixo da traseira do carro, ficava observando os primeiros grossos pingos de chuva encontrarem o cimento do quintal, tão quente do dia inteiro. Tinha uma espécie de temor ali, sei lá. Fosse da natureza, fosse do quintal em silêncio e deserto. Fosse talvez porque meus pais não soubessem que eu estava ali, embaixo do fusca. Quieto, olhando a chuva começar no quintal. Mais ou menos como o estranho que pode parecer mergulhar numa piscina, debaixo de chuva. O temor sempre presente. Uma espécie de desconhecimento, misturado ao prazer que a água te dá nestas condições. Mais até do que aquele banho de chuva, tomado na praia, depois de um dia inteiro de sol – mais cariocas. Típico dos dias de muito calor. E isso é sensação que não se pode descrever. Só mesmo sentir. É um prazer imenso e uma sensação de estar vivo, que não se pode mensurar. Mas o mergulho na piscina desconhecida, debaixo de muita chuva, talvez seja mesmo a espécie de prazer ao contrário. Como um suicida que se atira, sem no entanto desejar morrer.

Besteirinha

Depois choveu e tive aquela saudade que duraría o tempo do elevador chegar até o seu andar. Tempo mais que necessário para transpirar toda ansiedade e espera que me levariam ao paraíso. E ao inferno. Quando ele descesse e durasse o tempo mais que necessário para que eu entendesse. Que a próxima espera levaria milênios.

Digitais


Quero conter aquele perfume que aos poucos se esvai. E ando com passos quase mortos pela calçada já vazia, embora fuja dos gigantes implacáveis relógios digitais que querem me dar conta: já é dia. Fujo para conter. Fujo para reter comigo aquele fio restante de calor e perfume já quase esgotados. Quero levar comigo. Não vejo outra saída. Senão paralisar. Congelar na calçada já vazia.

Últimos dias dos Monstros


– Não perca as últimas oportunidades de assistir a um espetáculo tão perturbador quanto enriquecedor.


O LIVRO DOS MONSTROS GUARDADOS está no Teatro Imprensa - SP
Terças, Quartas e Quintas às 21h

Foto & Fonte do blog cacilda.folha.blog.uol.com.br/

Love Rescue Me

Love rescue me
Come forth and speak to me
Raise me up and don't let me fall
No man is my enemy
My own hands imprison me
Love rescue me

Many strangers have I met
On the road to my regret
Many lost who seek to find themselves in me
They ask me to reveal
The very thoughts they would conceal
Love rescue me

And the sun in the sky
Makes a shadow of you and I
Stretching out as the sun sinks in the sea
I'm here without a name
In the palace of my shame
Said, love rescue me

In the cold mirror of a glass
I see my reflection pass
See the dark shades of what I used to be
See the purple of her eyes
The scarlet of my lies
Love rescue me

Yea, though I walk
In the valley of shadow
Yea, I will fear no evil
I have cursed thy rod and staff
They no longer comfort me
Love rescue me

I said love
Climb up the moutains, said love
I said love, oh my love
On the hill of the son
I'm on the eve of a storm
And my word you must believe in
Oh, I said love, rescue me
Oh yeah, oh yeah, oh yeah...

Yeah I'm here without a name
In the palace of my shame
I said love rescue me

I've conquered my past
The future is here at last
I stand at the entrance
To a new world I can see
The ruins to the right of me
Will soon have lost sight of me
Love rescue me

– U2

I CAN'T EXPLAIN

And I won't even try.

Noites brancas

E se depois de todas as camisetas brancas, de todas as rosas brancas daquele jardim de inverno coberto de pequenas pedras brancas, o que seria ter na minha direção aquele branco cheio de perguntas do seu olhar? O mesmo olhar que todos na grande casa, da grande festa desejam. O que seria? Talvez uma paz tão breve e tão branca sendo mais branca até que todas as rosas e todos os filtros de todos os cigarros e todas as camisetas que desfilam, que passam e te olham. E se depois de toda essa paz que duraria tão pouco, na verdade só o tempo breve do pulo do gato que salta do banco de vime do jardim de inverno e passa tranquilo pela sala ignorando os filtros, as camisetas e os olhares brancos que vão todos para você. O que seria ter na minha direção este olhar? Que embora na festa não é de alegria. É antes de pedinte. É antes do cientista que busca louco pela noite a dentro a tão desejada fórmula. A tão desejada cura. O tão desejado e sempre buscado mas nunca encontrado. O seu olhar, no segundo em que o gato atravessa a sala entre todas as camisetas brancas, cai na minha direção. Neste exato e breve segundo que, sem chances de sobrevivência, caio sem vida no jardim coberto de pedras brancas.

Swing de Campo Grande

Minha carne é de carnaval
O meu coração é igual
Minha carne é de carnaval
O meu coração é igual
Minha carne é de carnaval
O meu coração é igual

Aqueles que têm uma seta
e quatro letras de amor
por isso onde quer que
eu ande em qualquer pedaço
eu faço
um campo grande
um campo grande
um campo grande

Eu não marco toca
eu viro toca
eu viro moita


Os Novos Baianos

Relapse

Esperança

Vi a esperança de regata branca me enviar um sms de saudade. É sempre bom ser lembrado. Principalmente por ela, vestida assim para matar. Cinco minutos depois ela chegou. Sem alarde, para não ser notada por quem não merecia. Porque eu sim. Eu sim.

Geladas & Risadas

Tá, este é daqueles escritos no próprio editor do blog. Segura, é provável que saia merda. Ou não, a ver. É só porque preciso explodir um pouco. Pra não implodir. Dia quente, chato, que só não foi monótono porque consegui ter idéias boas que tomarão forma mais a frente. Dia chato em que pleiteei uma folga no trabalho pra amanhã e não consegui. Queria sair, dar umas risadas, tomar uma gelada e falar um pouco de merda. Ok, não consegui a folga, mas vou fazer tudo isso assim mesmo. Matei um encontro importante, que ia me fazer bem (em parte), porque acreditei que me sairia melhor se fizesse as três coisas que falei acima, mais triviais mas não menos importantes. Pelo menos hoje. Porque hoje é assim. Vou me sentir melhor falando merda, dando risada e tomando uma gelada. Nesta quarta-feira normalzinha, em que não fiz coisas importantes que deveria fazer. Mas que me divertir, nem que seja só um pouquinho nas próximas horas, vai me lavar a alma. Peace.

DELETEI

Hoje tá foda.

500 days of summer


Vi gente boa e inteligente torcer o nariz pra este filme, que à primeira vista, pode parecer apenas mais uma comédia romântica. NÃO É! Misturando referências de produções recentes e bem sucedidas com uma leitura pop dos relacionamentos, o longa dá quase todo o crédito ao seu diretor, Marc Web, egresso dos Vídeo Clips. E o cara acerta em cheio ao unir os estilos pra contar a história (não) romântica de um casal que (não?) dá certo. Levanta a mão quem nunca viu isso antes. Digo, na vida, pô.

É a história de Tom (Joseph Gordon-Levitt), amargurado redator de cartões comemorativos que vê sua vida mudar ao conhecer Summer (Zoey Deschanel, um chuá). Ele é um romântico convícto e a moça não. Mas não é só isso. Roteiro inteligentíssimo, atores excelentes, trilha sonora arrasadora, são só alguns dos pontos que ressalto pra fazer você correr pro cinema mais próximo o quanto antes. Não perca por nada.

segunda-feira

Não consigo dormir

Depois eu não consigo dormir com você na minha cama. E não to falando apenas de sexo. To falando de tudo que falamos antes, incluindo os palavrões durante e depois das 3 da tarde, quando não deixo o sol entrar e me pego conversando com você. Você tão natural como veio ao mundo, falando dos almoços de domingo na casa da sua avó. Ou da viagem ao Rio de Janeiro na casa de uma amiga. Tão natural, que eu imagino o que elas diriam se pudessem te ver agora, voltando do banho, esquecendo de limpar os pés ao subir na cama. Folheio um gibi enquanto você seca os cabelos. De minha parte não movo um músculo sequer. Não vou a lugar nenhum. Depois deixo você ir. Porque eu não consigo dormir com você na minha cama.

A pequena felicidade


O sol que refletia no liso cimento queimado do corredor o fez protejer os olhos. O estreito corredor que levava aos fundos do velho quintal, que ele ganhou lento, batendo atrás de si o pequeno portão de madeira. O sol do meio da tarde estalava o cimento queimado, como uma gigantesca lente de contato, fazendo subir um calor quase insuportável. Poderia queimar os pés se pisasse descanço naquele cimento em brasa. Quando era criança, nos dias de chuva, se jogava no liso molhado do corredor e escorregava até os fundos da casa, onde sua mãe não raro o advertia, embora, apesar de não demonstrar, gostasse das suas brincadeiras na chuva. O barulho do portão batendo despertou o velho Amarelo, deitado amarrado à uma sombra de goiabeira, que abanou preguiçoso a calda felpuda ao reconhecê-lo. No seu lugar de sempre, próximo ao pequeno tanque de roupas, onde ele adorava tomar banho, pequenino, nos dias de muito calor. Como aquele em que voltava, depois de tanto tempo. Quanto tempo? Não saberia dizer ao certo. Mas era tempo o suficiente para reconhecer a velhice do fiel Amarelo, agora quase todo branco, língua para fora, abanando a calda com a preguiça de viver que só os velhos têm. E isso não importa se gente ou bicho. Ao lado do tanque de roupas, a porta aberta da cozinha revela o escuro lá de dentro. O ar sem luz que o faz sentir o cheiro frio de comida guardada, encontrando o ar quente dos fundos da casa. Parou em cima do tapete da porta, gasto e já furado e a viu de pé, diante da pequena pia. Acima, numa abertura na parede, a imagem de São Francisco, o protetor das crianças e dos animais. Ela emborcava o último copo enxuto sobre o pano de prato estendido na pia quando parou, de repente. Parecia pequena. Ainda menor do que sempre fora. Mais curvada, mas ainda conservando alguma beleza da mulher que havia sido. Sem susto ela deparou com ele parado à porta. Magro, queimado de sol, a barba por fazer e os olhos pequenos que ela tanto conhecia. Os olhos que pareciam sempre lhe pedir desculpas. Como uma onda impossível de se conter, de espera, de angústia, de saudade, de tantas coisas que nunca foram ditas, tantos momentos nunca realizados, ela abriu os braços para ele, sem sorrir e sem chorar, apenas o velho rosto firme que ainda lhe chamava, ainda lhe esperava. Com a cabeça nos ombros dela, depois de tanto tempo, ele pôde sentir seus dedos mexendo sua orelha, num carinho antigo. Ela dizia alguma coisa mas ele não ouvia. Ele só ouvia o grande poço escuro dentro da sua cabeça. Ouvia apenas o som da moeda que cai no nada sem nunca chegar ao fim. Ele não a ouvia, mas ela o ouvia:

– Não posso mais fugir, mãe. Não tenho mais onde ir. Não tenho mais em quem confiar. Fiz mal a muita gente, mãe. Eu não aprendi nada, eu não aprendi nada, mãe.

Cansado, ele suava de febre e medo. Ela o puxa para dentro da casa. Sentam-se enquanto ele lhe conta tudo, tal como o condenado que anseia livrar-se de todos os crimes. Não havia mais solução. Depois de tantos desatinos, tantos crimes, era realmente muita sorte que ainda estivesse livre. Que ainda estivesse vivo. Acuado e vencido, ele voltava apenas para vê-la, ainda uma vez, antes de desaparecer definitivamente. Era certo que o pegariam. Era certo que o matariam. Voltava porque ali deixara um dia, o que ele chamava de pequena felicidade. A pequena casa onde crescera, onde fora amado e onde, reconhecia agora, tivera a maior felicidade que poderia alcançar na vida, que ele fizera toda errada. Voltava para pedir perdão. Compreenssiva, ela promete acolhê-lo e salvá-lo ainda mais uma vez. Ele sorri da sua ingenuidade. Ela lhe prepara um banho, remédios, alimento. O põe na sua cama de criança e fica ao seu lado, até que ele finalmente adormece, depois de muito chorar e delirar. Se entrega por fim ao cansaço e ao amparo das mãos dela. Respirando aliviada por vê-lo finalmente em paz, ela o observa dormir, como o menino de tanto tempo atrás. O cansaço, junto ao forte chá relaxante que ela o fizera tomar certamente derrubam sua resistência e ele dormiria por horas até que os efeitos passassem. Sem tirar os olhos dele, ela toma o pequeno travesseiro e põe delicadamente sobre seu rosto, deitando-se sobre ele. Há apenas um pequeno e breve movimento de braços, que graças ao seu sono profundo, ela consegue vencer. Fica ainda assim, sobre ele, mesmo depois que todos os movimentos cessam. Por fim o toma nos braços, como quando o fazia dormir e quase sorri. Quase feliz, ela conseguira enfim, salvar o seu menino.

Love without talking

Hoje oro por eles

Trust me:

my happiness
no relation to happiness.