Aron Ralston


Falei outro dia aqui sobre cortes. Me referia a demissões, sim. Aos efeitos da tal "krise", como escreve o Otávio. Com K, como se fosse uma grife, acho que a idéia é essa. Seja ela real ou não, esta crise está instalada no planeta, e com ela, inevitavelmente, os movimentos, positivos ou negativos, que em maior ou menor escala, provocam os tais cortes que falei antes. Vejo uma insatisfação generalizada com todo mundo que convivo, converso, trabalho. Me dá a impressão que todos estão incomodados onde estão, ou como estão, e esta insatisfação provoca os tais movimentos. Que no cômputo final, eu acho até positivo. Não tá satisfeito, muda. Pára de reclamar e muda. Isso eu digo pra mim mesmo, que tô precisando dar um pontapé na própria bunda. As vezes, só assim mudamos. As vezes, só assim vamos em frente. Isto me faz lembrar a história do montanhista americano Aron Ralston, que em maio de 2003, cortou o próprio braço, que ficou preso sob uma rocha, no Parque Nacional dos Cânions, no Colorado. A aventura de Ralston começou quando deixou sua picape no estacionamento, pegou sua bicicleta e pedalou cerca de 24 km até a abertura de uma garganta profunda. A idéia era descer o cânion, que terminava próximo do local onde a picape estava parada, pegar o veículo e ir buscar a bicicleta. O drama começou quando uma grande rocha escorregou e prendeu a mão de Ralston contra a parede de pedra. Experiente em escaladas, ele tentou de tudo para soltar a mão presa na rocha, desde tirar lascas da pedra com o canivete até usar as polias e cordas que estava carregando para mover a rocha. Nada funcionou. Ficou nesta tentativa por três dias, até que água e comida acabaram.
Ralston conta que tentou decepar sua mão com o canivete, mas que a lâmina estava quase cega. No quinto dia, ele diz ter percebido que a faca não seria suficiente para cortar os ossos, e decidiu que precisaria quebrá-los. Sim, quebrar os ossos do braço, pra que pudesse em seguida, cortá-lo. Realmente, não é uma decisão das mais fáceis de se tomar, mas ele o fêz. Lembro de ter lido na época, que ele tinha alguns analgésicos na sua mochila. Mesmo assim. Pense bem, não é uma decisão fácil. Ainda depois da cirurgia improvisada, Ralston teve que rastejar por um cânion tortuoso, descer um precipício de 18 metros e andar 10 km. Quando encontrou outros aventureiros e foi socorrido, estava a apenas cerca de 2 km de seu carro. Ele podia esperar mais algum socorro? Talvez não. No quarto dia, o braço começava a necrosar. Ele morreria se continuasse preso. Seu movimento foi brusco, dramático. E o corte então, nem se fala. Mas ele agiu. Era vital que agisse. Isso serve pra todos nós. Neste momento, em que todos reclamam, mais do que nunca, é vital que nos movimentemos. E façamos o que tem que ser feito. Ninguém o fará por nós. Peace!

2 Response to "Aron Ralston"

  1. nAtHaNaeL, Says:

    Não sei se foi a forma com que você narrou o ocorrido, mas achei - de uma certa forma - beleza na história. (Que eu não seja mal interpretado, longe de mim desejar isso a alguém). Mas exemplifica bem mesmo a vida: arriscar-se é também poder perder, mas sempre ganhar. Só me pergunto se isso é permitido a todos ou se só a alguns. Não seriam os que não o podem os responsáveis por segurar a 'humanidade' e permitir a loucura? Abs.

  2. Roberto Says:

    Sigo a mesma linha de pensamento que você descreveu: movimentar-se ajuda o ser humano a enxergar a vida de maneira diferente. Reclamar não ajuda em nada. Agir sim.